Sem salários, professores em greve fazem malabarismo para sobreviver
por Patrícia Conceição
Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias
Com o corte de ponto anunciado pelo governo do Estado em meados de abril,
os professores da rede estadual de ensino, em greve há 57 dias, têm se
virado pelo avesso para pagar as contas sem abrir mão da paralisação. A
receita inclui corte de gastos, um pouco de solidariedade, mais um
tanto de jogo de cintura e, se tiver sorte, empréstimos bancários. Os
colegas Evando de Oliveira e Betânia Carneiro, que lecionam língua
portuguesa em escolas de Riachão do Jacuípe, fizeram as contas e
encararam três horas de estrada para participar da assembleia da
categoria, realizada nesta terça-feira (5), em frente à Secretaria
Estadual de Educação, em Salvador. A dupla e outros 20 conterrâneos
compartilham as dificuldades de viver sem o vencimento mensal. “Sem
salário, não tem margem para empréstimo bancário. Para conseguir
dinheiro no banco, só se for amigo do gerente. As famílias estão
ajudando. Os amigos estão ajudando. Nós estamos sobrevivendo com a
ajuda dos outros. Se não tiver ajuda nós morremos de fome”, relatou
Evando, em entrevista ao Bahia Notícias. “Não temos margem nem para
comprar na Cesta do Povo. O cartão está sem limite”, completou Betânia.
E o que fazer quando toda a renda da casa vem do trabalho nas salas de
aulas das escolas estaduais? O professor Luís Nascimento, casado há
quase dez anos com uma colega, dá a dica. “A gente sempre economizou,
então temos uma reserva, mas estamos fazendo contorcionismo para não
ficar no vermelho. O mais importante é não deixar se abater e continuar
a luta”, contou.
Apesar dos relatos de dificuldades financeiras, os docentes não aceitaram a proposta reapresentada pelo governador Jaques Wagner,
que prevê a antecipação de ganhos escalonados de 3% e 4% para novembro
deste ano e abril de 2013. “Não foi uma reapresentação de proposta. O
que ele está dando é uma coisa que já existe na lei para professores
certificados e que só atinge 10% da categoria”, argumenta Jaqueline
Correia, que atua em uma unidade de ensino do bairro de Paripe, em
Salvador. A promessa é que, sem o reajuste linear de 22,22% que
garantiria o piso nacional, não tem volta ao trabalho. “Não queremos
parede, teto, nem migalhas. Queremos o piso. Se ele não vem fazemos
vaquinhas, fazemos bazar, vamos nos ajudando”, conclui Jaqueline. A
notícia de que o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) havia determinado
o restabelecimento imediato do pagamento dos salários
trouxe um alento para a categoria, mas apenas passageiro, já que o
governo promete recorrer à decisão e, enquanto isso, os docentes seguem
na expectativa e prometem não ceder.