domingo, 15 de abril de 2012
Greve dos professores: para que serve? _ por Lucas Gonzaga
por Lucas Gonzaga
"... deveriam priorizar o empenho de formação permanente dos quadros do Magistério como tarefa altamente política e repensar a eficácia das greves" Paulo Freire em Pedagogia da Autonomia.
Basicamente todos os anos, nas principais capitais do Brasil professores entram em greve. E não são poucos os casos da bendita greve de três meses, onde após, o Juiz bate o martelo a desqualificando e, consequentemente, acaba por ruir o movimento grevista dos professores, pois começam a deitar e rolar nos contras-cheques os descontos para quem continuou com a greve decretada como ilícita. Isso é que faz muita gente desistir da greve.
Aliás, qual seria a lógica da greve de professores? Imagine uma montadora de automóveis, com 12.300 trabalhadores como na GM de São Caetano/SP. É imensurável o desespero do explorador, dono ou grande acionista quando 12.300 funcionários entram em greve. Toda a produção é interrompida, prazos de entrega começam a vencer, desistências surgem aos montes até que, de forma infalível, os patrões se rendem e é inevitável ao menos uma negociação.
Negociação,algo que pelo menos aqui não ocorre entre professores do Estado do Rio de Janeiro e o Governador (Governadores) e de igual forma também não acontece entre Prefeitos e os Professores do Estado. Não sei como é entre outros estados, estimo que o mesmo deve acontecer. Apenas sei que, quando há alguma resposta dos governadores e prefeitos que passam aqui pelo Rio de Janeiro, já sabemos que resposta é essa: porrete, bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo.
Por isso é preciso que fique aqui claro qual o principal efeito que a greve, seja por qual classe de trabalhadores for, deve ter. Sim, objetivos nós sabemos quais são, são os direitos que reivindicamos, aumentos de salários, abolição de alguma lei que nos prejudique e coisas tais. Agora o efeito que a greve deve ter é o total desespero do empregador, o sentimento de que está perdendo algo de fato, no caso aqui apresentado, o prefeito ou governador deveriam estar nessas condições.
Imaginem como poderia ficar o governador do Rio de Janeiro se a greve dos Policiais Civis, Militares e Bombeiros vingasse, chegando a se estender a pleno carnaval, isso é claro, se não existisse a guarda nacional ou qualquer outro tipo de ajuda. Muito dinheiro perdido, menos empresários a serem beneficiados quando contratados pelo Estado para serviços, principalmente construtoras, logo, menor será a quantidade de doadores para campanhas eleitorais para o governador e seus aliados políticos.
Porém fica a pergunta: que desespero, perda real, prejuízo, sensação de importância dos professores tem o governador ou prefeito quando professores entram em greve? Greve de professores não faz nem cócegas nos governadores e prefeitos. Na verdade eles economizam luz, alimento e um tanto de outros gastos e, quando começa a descontar por decreto de greve ilícita, se muitos professores persistirem governadores e prefeitos economizam ainda mais, podendo assim fortificar, no caso de governador, apoio de prefeitos ao liberar verbas e também aquele esquema que descrevi no parágrafo acima. Estaremos, pois, ajudando a consolidar a falsa democracia. Bom, é meu raciocínio, sou leigo, fico grato se alguém me ajudara pensar e me corrigir.
No fim das contas estaremos fazendo acho que algo ainda pior que é contribuir pela perpetuação de cidadãos inertes, que não reclamam nem se organizam para protestar ou fazer qualquer outro tipo de ação contra as mazelas do Estado. Por quê? Simples e altamente dedutível: estaremos deixando de educar e instigar conhecimento em nossos alunos. No meu caso, professor primário, estarei mexendo com uma fase muito delicada da educação. 3 meses de greve, por exemplo, são meses fundamentais para uma alfabetização eficaz. Paulo Freire mais uma vez pode exemplificar o que estaremos deixando de cumprir:
Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.
Precisamos nos organizar por conta própria, pois se esperarmos pelos governos ou nunca teremos nada ou quando tivermos, teremos nos moldes do governo e , sabemos bem que, os beneficiados sempre são o governo e seus aliados e não necessariamente educandos e educadores. Quando falo em professores se organizando por conta própria me vem em mente a palavra martírio, deveras é certo que se nos esforçamos ainda mais do que já nos esforçamos em sala de aula, é martírio! Sei que ainda é mais difícil do que montar uma greve que costumamos achar que é eficaz, que é uma greve cheia de manifestantes, porém me parece ainda mais interessante e eficaz para um dia conseguirmos algo educar, que deixar de educar. Discentes críticos nos darão apoio em greves no futuro e aí sim, o desespero de autoridades autoritárias surgirá, tendo em vista a legião do conhecimento, o mar de informados e pensadores. Sei que a realidade é mais complexa e que nada será resolvido em um texto com alguns parágrafos. Não tenho cacife para dar soluções, apenas a habilidade mínima que todos temos de instigar diálogos e provocar debates.
Podemos então refletir na proposta do Paulo Freire:
“... deveriam priorizar o empenho de formação permanente dos quadros do Magistério como tarefa altamente política e repensar a eficácia das greves"
